Carta para minha mãe | Luis Antonio 13
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Vereador - Luis Antônio

Mãe, o último domingo – 15 de março – foi um dia sombrio.

Pelas ruas do Brasil, por nossas largas avenidas, uma ruidosa marcha de milhares de pessoas revelou a infâmia escondida nos porões ou em baús onde o medo e as mortes de centenas de brasileiros permanecem impunes.

Depois de trinta anos de redemocratização é que eles, da direita brasileira, realizam sua maior manifestação pública de massas.

Ali estavam perfilados com absurdas faixas os nostálgicos da cadeira-do-dragão e do pau-de-arara, os matadores de crianças, os que diziam que os métodos da Gestapo estavam ultrapassados, os querem reduzir a maioridade penal, a bancada da bala, a Opus-Dei e a Rede Globo. 

O desfile, que contou com o entusiasmo e presença de notórios torturadores, como é o caso de Carlos Alberto Augusto – conhecido nas masmorras da repressão como “Carlinhos Metralha” – que, para a glória eterna de Médice e Geisel, distribuía selfies e sorrisos ao vangloriar-se de sua participação, em 1973, no “Massacre da Chácara São Bento”, comandada pelo delegado Fleury, em Paulista (PE).

Naquele episódio a jovem Soledad Barret, presa e grávida como tu, minha mãe, fora morta com mais seis companheiros, todos sob a mais lancinante tortura. Ela, como todos, foi entregue pelo famigerado agente infiltrado Cabo Anselmo. Tal agente era o pai do filho que Soledad carregava.

Mãe, sinto-me agitado em teu ventre e a memória da carne retorna sob as botas do tirano e pergunto, afinal,  quem deu aos verdugos o direito à luz do sol depois de tantos anos de escuridão?

Como a impunidade pode ser tão escandalosa?

Em mim, pequena mãe, vou compreendo cada vez mais que os navios negreiros e seus mercadores ainda permanecem como guias-espirituais de nossas elites. A violência, então, não apenas ressignifica essa ‘gente diferenciada’ mas confere-lhe lugar de proa no corolário dos comboios dos pescoços amarrados em pescoços que, através dos séculos, fez do suplicio sua mão possessa no pasto da brutal formação da nacionalidade, como ensinou Darcy Ribeiro.

Mãe, alguns amigos e parentes, dos mais queridos, estavam lá e vejo pelas redes sociais de como o esgoto, o lixo e pesticidas altamente desfolhantes – destes que se consomem em grandes goles e que está sendo servido diuturnamente pela mídia golpista – pôde fazer tanto estrago nas mentalidades. Alguns deles passarão por essas palavras noturnas e espero que reflitam sobre as consequências de dar, ao cio dos fascistas, a cadela do obscurantismo.

Sei o quanto dói na gente, em ti, em mim, em meus irmãos, a lembrança destes episódios na qual fomos torturados dentro do próprio Ministério do Exército, no Pelotão de Investigações Criminais, em Brasília, ou na Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro.

Mãe, a tortura ainda permanece dentro da gente.  Do capuz escuro aparece um medo cortante e, por todos os dias, anos que se seguem, vamos aprendendo a enfrentar a mão colérica dos que nos queriam mortos e desaparecidos, sepultados numa vala comum, como indigentes. 

Sobrevivemos porque, tanto tu como o Paulo resistiram a morte precoce e a loucura. Temos, então, responsabilidade nos estampidos da artilharia. 

Eles, os violentos, não passarão!

Hecilda, pequena mãe, seguiremos na luta!

Por Paulo Fonteles Filho.

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