2014 Outubro | Luis Antonio 13



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Vereador - Luis Antônio
Acontecendo


Arquivo do mês: Outubro 2014

Nós, brasileiros, sofremos de uma curiosa disfunção cognitiva, que incide sobre a população com a mesma frequência que a intolerância à lactose, entre os japoneses, ou a inclinação para os trocadilhos, entre os ingleses. Falo da nossa capacidade de nos indignar com a corrupção alheia ao mesmo tempo em que ignoramos completamente os próprios desvios. Conforme o segundo turno das eleições presidenciais se aproxima, dia 26, o mal se alastra como uma epidemia.

Nos bares, nas ruas e nas redes sociais, defensores de Dilma Rousseff, do PT, candidata à reeleição, e do senador oposicionista Aécio Neves, do PSDB, não se cansam de apontar o dedo uns pros outros e relembrar as roubalheiras em que o partido rival se envolveu. Os petistas costumam citar o escândalo da reeleição, em que o PSDB é acusado de subornar congressistas para aprovarem uma emenda constitucional, permitindo que Fernando Henrique Cardoso concorresse novamente à Presidência, em 1998. Os psdbistas citam o caso do mensalão, em que políticos da base do PT, na Câmara, recebiam mensalmente dinheiro desviado do caixa 2 da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Infelizmente, quando se trata de reconhecer as próprias lambanças, o silêncio é sepulcral. Nem aqueles poucos que conseguem se manter isentos no meio do tiroteio partidário escapam à disfunção cognitiva. É comum ouvirmos que o problema não seria o PT nem PSDB, mas os políticos, como um todo; como se os políticos fossem uma espécie à parte, ETs infiltrados com o intuito de corromper nossa idônea população. Nesse quesito, porém, a população não precisa de ajuda.

Lembro bem de quando fui apresentado à corrupção. Era domingo, eu tinha uns sete, oito anos de idade e almoçava na casa de um tio. Vamos chamá-lo de Arthur. Arthur era o meu parente mais rico e morava numa casa com piscina. Lá pelo meio do almoço ele contou à família, orgulhoso, como havia encontrado um jeito de desligar o registro de água em frente à casa, de modo a encher a piscina sem gastar um tostão. Não me lembro de o terem repreendido. Hoje, meu tio está aposentado, mora num apartamento e, vira e mexe, me repassa uns e-mails revoltados contra a corrupção do PT, no governo.

Eu gostaria de acreditar que tais condutas são coisa de gente mais velha, que os avanços do país nas últimas décadas tornaram mais ética a nossa postura, mas isso não parece ter acontecido. Uma amiga minha, advogada de trinta e poucos anos, criou no computador um documento falso de cabeleireira para ter desconto numa loja de xampus. Ela é sócia de um escritório de direito tributário e com o que ganha em um ano poderia, provavelmente, comprar xampus para as futuras três gerações de sua família. Um psicanalista com quem me consultei, anos atrás, cobrava mais barato caso eu pagasse as sessões em dinheiro vivo, permitindo-lhe burlar a Receita Federal. Quando você pede um recibo para um taxista, no Rio de Janeiro, costuma ouvir como resposta: “Que valor quer que eu ponha?”. O raciocínio do motorista é que, como uma empresa te reembolsará aquele valor, você pode supervalorizar a corrida e roubar uns R$ 10 ou R$ 20 do seu empregador. Em troca do “favor”, claro, ele espera uma pequena porcentagem do desvio. As possibilidades de corrupção estão até nas situações mais prosaicas. Uma ida ao cinema, por exemplo. Todo cidadão brasileiro acredita que é seu direito inalienável furar a fila, caso encontre um amigo melhor posicionado. Você chega ao cinema, garante o lugar no fim da fila e diz ao seu par: “Peraí que eu vou ver se eu conheço alguém mais lá na frente”. No Facebook e no Twitter, contudo, a culpa por todos os nossos males é do PT, do PSDB ou dos políticos, em geral.

Claro que houve avanços, nos 20 anos em que PSDB e PT estiveram no poder.

Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), do PSDB, acabou com a hiperinflação, valorizou a moeda, tirou a economia da UTI. Lula (2003-2011) e Dilma (2011 até hoje) aprofundaram, reformaram e criaram programas sociais que alçaram 50 milhões de pessoas da pobreza à classe média. Esses avanços, porém, se deram sem sanar os velhos problemas: alianças espúrias para se obter maioria no Legislativo, troca de favores, fisiologismo, corrupção.

São traços de um país que surgiu, 514 anos atrás, como uma despensa ultramarina de Portugal, onde homens vinham ganhar dinheiro longe da lei, da cruz e das mulheres: primeiro, extraindo pau-brasil, (árvore cuja seiva vermelha era usada para tingir tecidos e que emprestou o nome ao nosso país), depois plantando cana de açúcar, traficando escravos, garimpando ouro e pedras preciosas.

Muito da inconsequência e do imediatismo daqueles exploradores continua vivo entre nós.

Seria eu o único brasileiro livre desses traços? Evidente que não. Ano passado, comprei uma geladeira. Na loja, disseram que, além de entregar, poderiam instalá-la, por R$ 450. Achei caro, disse que eu mesmo a instalaria. Quando ela chegou, no entanto, percebi que não daria conta sequer de tirá-la da caixa, imagina só de fazer as conexões hidráulicas necessárias. O entregador deu uma tussidinha e propôs: “Amigão, se quiser, eu instalo agora, por R$ 100. Mas, assim… A loja não pode ficar sabendo…”. “Claro”, assenti. O tio Arthur ficaria orgulhoso, se soubesse.

Outro dia, olhando essa geladeira, compreendi que ela é um pouco a imagem do Brasil atual: moderna, potente, vistosa, na frente, mas funcionando somente graças às velhas conexões que insistimos em perpetuar, lá atrás. Pode ganhar Dilma ou Aécio, dia 26: ainda vai levar muito tempo para resolvermos os problemas que estão nas raízes do pau-brasil.

Antonio Prata, escritor, também é colunista da Folha de S.Paulo. Envie comentários para[email protected]

 

Apontar ganhador no debate da Record entre Dilma e Aécio no último domingo depende da filiação ou da simpatia partidária de cada um. Claro que cada lado terá seus argumentos sobre o que disse seu candidato para que fosse vencedor, mas, para o eleitor indeciso – que é o alvo dos debates e das campanhas neste momento –, não deve ter havido vencedor.

Este Blog, porém, tem opinião sobre o que viu. E, de tudo que foi visto, recolheu ao menos uma informação eloquente para que o leitor enxergue melhor quem se opõe a Dilma.

A numeralha e os termos técnicos são absolutamente inacessíveis para a população em geral. Isso sem falar que Aécio usa mentiras. Por exemplo, ao dizer que todos os indicadores sociais do Brasil vêm caindo. É mentira, vêm subindo há mais de uma década. Mas o tucano não pretende falar a verdade; seu objetivo é dar ares de verdade às próprias mentiras.

Aécio afirmou que Dilma não tem responsabilidade por investigações de corrupção, de modo que as milhares de operações da PF nos governos dela e de Lula, por exemplo, não seriam mérito dos dois. Mentiu de novo.

Sim, o governo pode permitir ou bloquear investigações. Como Dilma lembra sempre, no governo FHC chegava-se a transferir delegados da PF que investigavam “mais do que deviam”. E, ao nomear o primo do vice-presidente Marco Maciel como Procurador Geral da República, o ex-presidente tucano agiu para impedir “problemas” com o único órgão que poderia investigá-lo.

Contudo, além de manter um único procurador-geral da República em seu governo de 8 anos, e ainda um PGR que era parente de seu vice, FHC ainda tentou resguardar-se contra problemas futuros com a lei, pois nem ele acreditava que Lula assumiria e colocaria uma pedra sobre o passado.

Poucos se lembram disso, mas FHC tentou colocar no Supremo Tribunal Federal o homem que, durante oito longos anos, tratou de impedir toda e qualquer investigação sobre o governo federal, à diferença do que fariam Lula e, depois, Dilma, os quais nomearam para a Procuradoria sempre o nome indicado pelo Ministério Público.

E, repito, foram 3 PGR’s em 8 anos de Lula e 2 em 4 anos de Dilma contra 1 durante os 8 anos de FHC. É assim, como Lula e Dilma, que se combate a corrupção; é assim, como FHC, que se impede investigações de corrupção.

O ex-procurador-geral da República de FHC, Geraldo Brindeiro, primo do então vice-presidente Marco Maciel, livrou a cara de FHC várias vezes. Uma delas foi no caso da compra de votos para a reeleição do tucano, que o jornalista da Folha de SP Fernando Rodrigues considerou que foi inquestionavelmente corrupção envolvendo o governo tucano.

Veja, abaixo, vídeo em que Rodrigues fala sobre o caso.

 

 

 

 

Alguém foi sequer processado? Houve investigação? Nenhuma. Sabe por que, leitor? Porque FHC impediu. Ou melhor, o despachante que pôs na Procuradoria impediu.

O caso ao qual você viu o repórter da Folha se referir foi sumariamente engavetado por Geraldo Brindeiro. Se tivéssemos uma Procuradoria como as de Lula e Dilma, talvez o ex-presidente tucano estivesse saindo hoje da cadeia.

Devido a tão bons serviços prestados por Brindeiro, FHC tratou de tentar colocá-lo no STF, além de ter colocado Gilmar Mendes pouco antes para fazer o servicinho que vem fazendo para o PSDB ao longo dos anos. Porém, o tucano não conseguiu. Com a derrota de Serra para Lula, FHC tornou-se um “lame duck” e não teve força para dar sobrevida ao seu engavetador.

Abaixo, matéria do jornal O Estado de São Paulo de 2 de setembro de 2002 que mostra a manobra que FHC tentou para prolongar a vida útil do engavetador-geral da República, quem, ao lado de uma Polícia Federal manietada, impediu que qualquer das muitas falcatruas daquele governo fosse investigada.

 

Se dependesse das regiões Sul e Sudeste do país, o presidente da República para o quadriênio 2015 – 2018 seria Aécio Neves. O Brasil estaria se preparando para inaugurar mais uma República banqueira como tantas outras que o fizeram chegar ao limiar do século XXI como o quarto país mais desigual do mundo, perdendo só para países africanos miseráveis.O que livrou os brasileiros – inclusive do Sul e do Sudeste – da escuridão política foi o povo nordestino. O Nordeste, por ser a segunda região mais populosa do país depois do Sudeste e por ter dado a Dilma Rousseff apoio ainda mais intenso do que o que o senador tucano teve no Sudeste, reelegeu a presidente.O mais interessante nesse processo é que a região dos coronéis de outrora, que sustentou a ditadura militar nos seus estertores – quando o resto do país já exigia redemocratização – e que votava nos conservadores apesar de a vida de seu povo, com a direita no poder, piorar a cada ano, aprendeu a votar em causa própria.A eterna prepotência das regiões do resto país que se desenvolveram mais devido à política e não a méritos próprios, vem gerando surtos de preconceito contra o Nordeste nas últimas eleições presidenciais, com destaque para as de 2010 e 2014, quando o Ministério Público teve que entrar em campo para punir surtos racistas e xenofóbicos.O caso de São Paulo é pior, em termos de ignorância, preconceito e xenofobia. O povo paulista, hoje, emula o povo nordestino, que elegia, reelegia e elegia de novo seus algozes enquanto sua vida piorava. Os paulistas acabam de conceder o SEXTO mandato de governador ao PSDB apesar da piora galopante das próprias vidas.A hegemonia tucana fez com que, de 2001 a 2011, São Paulo se tornasse o Estado que mais perdeu participação no PIB da indústria brasileira. Apesar de ainda responder pela maior parte da produção industrial (33,3%), SP teve recuo de 7,7 pontos percentuais em sua participação no PIB industrial, onde há os melhores empregos.Ironicamente, enquanto a falta de água caminha para se tornar história no Nordeste, sobretudo devido à incrível obra de Transposição do Rio São Francisco, que, apesar das sabotagens, em breve estará concluída, no Sudeste, sobretudo em Minas Gerais e SP, a população paga pela incúria dos governos conservadores dos últimos 12 anos.A inversão do desenvolvimento no país se torna gritante na comparação entre o PIB industrial do Norte e do Sul do país. Enquanto o primeiro cresceu 1,9 ponto percentual no período de 2001 a 2011, o Sul perdeu 2,1 pontos.Tudo isso vem acontecendo porque, após a chegada do PT ao poder, em 2003, o Brasil tratou de reparar uma chaga histórica. Qual seja, o processo deliberado de incremento econômico do Sul e do Sudeste em detrimento do Norte e do Nordeste, que foi política de Estado ao longo de nossa história, desde o descobrimento.O que puxava os índices de desenvolvimento do Brasil para baixo sempre foi o Nordeste, mas só até que Lula chegasse ao poder. Dali em diante, essa equação começou a se inverter.Quando os paulistas acusam os nordestinos de terem sido responsáveis pela reeleição de Dilma por não saberem votar, mostram quanto não sabem nada sobre o próprio país. Os nordestinos sabem muito bem por que votam no PT, como mostra a mais nova edição da PNAD contínua, do IBGE.A nova Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) produz informações contínuas sobre a inserção da população no mercado de trabalho e suas características, tais como idade, sexo e nível de instrução, permitindo, ainda, o estudo do desenvolvimento socioeconômico do País através da produção de dados anuais sobre trabalho infantil, outras formas de trabalho e outros temas permanentes da pesquisa, como migração, fecundidade etc.Pois bem: segundo a nova PNAD contínua, divulgada na última quinta-feira, no período de 12 meses (fechado em junho) o Nordeste liderou a criação de postos de trabalho no país. De 1,5 milhão de empregos criados nesse período, 1 milhão foi criado no Nordeste e o resto pelas demais regiões.Vejamos, então, quem é que não sabe votar: o povo de São Paulo, que vota há vinte anos em um governo que liderou a redução da presença de seu Estado no PIB, que materializa uma inédita escassez de água e que vê seus problemas sociais se agravarem, ou o povo do Nordeste, que votou maciçamente em um governo que vem fazendo a vida melhorar tanto na região?O PIB nordestino cresce a uma taxa quatro vezes maior que a do resto do Brasil. Isso ocorre porque, após a chegada de Lula ao poder, o governo federal vem fazendo o que tem que ser feito no país para acabar com um nível de desigualdade que mantém os brasileiros no atraso.Como é que se distribui renda? Antes de distribuir por idade, sexo etc., a renda começa a ser distribuída geograficamente e, passo a passo, a atuação governamental vai se sofisticando por idade, gênero etc.Ou seja: para distribuir renda no Brasil, há que fazer, primeiro, as regiões mais pobres crescerem mais do que as regiões mais ricas.Com efeito, se o Norte e o Nordeste fossem um país – como, inclusive, quer parte do Sul e do Sudeste –, seriam um dos países que mais crescem no mundo, com o PIB do último ano crescendo mais de 4%.Infelizmente, só há uma forma de distribuir renda: para alguém ganhar, alguém tem que perder. Não dá para todos ganharem da mesma forma se um tem mais e outro tem menos, e o que se quer é justamente maior igualdade. Assim, o Norte e o Nordeste precisam crescer mais do que o Sul e o Sudeste mesmo.Se aqui, no “Sul Maravilha”, não fôssemos tão egoístas e alheios à realidade, entenderíamos que não adianta querermos o desenvolvimento só para nós – ou mais para nós – porque o povo das regiões empobrecidas migra para cá, aumenta a demanda por serviços públicos e, mergulhado na pobreza e no abandono, vê seus filhos caírem na criminalidade.Com o maior crescimento do Norte e do Nordeste, a migração cai ou muda de rumo, como tem acontecido – hoje, há cada vez mais nordestinos voltando à região de origem. Além disso, o Sul e o Sudeste poderão parar de enviar recursos, via impostos, para combater a miséria extrema nas regiões mais pobres.De certa forma, o povo do Sul-Sudeste tem um “motivo” para não gostar dos quatro governos do PT a partir de 2003. A percepção de que o desenvolvimento dessas regiões não tem sido grande coisa, não chega a ser cem por cento errada. Porém, isso ocorre porque está havendo redistribuição de renda entre regiões, no Brasil.No atual ritmo de crescimento do Norte e do Nordeste, em mais um mandato do PT o Brasil terá outra face – mais justa, mais coerente com um país que não pode ser rico em uma ponta e miserável na outra. E, ainda que grande parte do povo das regiões preteridas não entenda, ao fim todos sairemos ganhando com isso.

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